Julio FurlanetoJulio Furlaneto

Autoconhecimento · 6 min

Quando a Pressão Mostra o Verdadeiro Rosto

Provas da vida, escolhas difíceis e o poder da oração

Julio Jansen Iglesias FurlanetoJulio Jansen Iglesias FurlanetoPsicólogo Clínico · CRP 05550-0
Imagem de capa sobre quando a pressao mostra o verdadeiro rosto e psicoterapia online com Julio Furlaneto

Provas da vida, escolhas difíceis e o poder da oração

Houve uma época em que todo tipo de revista trazia um “teste” para que o leitor descobrisse alguma coisa sobre si. Nas faculdades também se ensinavam testes mais sérios para futuros psicólogos — alguns até ajudavam a medir certas habilidades. Mas esses testes também podiam dar uma visão limitada: rotulavam as pessoas e, às vezes, fizeram com que gente com alto QI se sentisse segura demais e, na prática, não desse conta das dificuldades da vida.

Com o tempo, muitos desses testes perderam espaço. Surgiram métodos mais precisos, inclusive com ajuda de computadores, que conseguem identificar capacidades e dificuldades. Mesmo assim, o desejo de reduzir uma pessoa a números e códigos não deu conta do mistério humano: não somos apenas dados.

Quando falo em “superteste” não me refiro a estatísticas. Refiro-me a algo que todos podemos observar em nós mesmos: quando estamos sob forte tensão emocional, nos mostramos diferentes do que somos em situações calmas. Falamos e agimos com menos reflexão e menos disfarce. O que está por baixo das nossas máscaras tende a aparecer.

Dizendo de outra forma: a pressão emocional arranca um pouco do verniz social que usamos. A cor original — o nosso jeito verdadeiro — fica mais visível. Pode aparecer uma face clara, nobre, ou uma face escura — não importa a aparência inicial.

Alguém pode argumentar que a tensão pode distorcer a pessoa — e é verdade que medo, raiva, frustração ou tristeza mudam o comportamento. Mas justamente por isso o “teste” é revelador: ele mostra o que a emoção forte faz com cada um. A pergunta essencial é: diante da maior pressão, o que alguém está disposto a fazer? E o que ninguém, por mais pressão, aceita fazer?

Essa linha de limite — aquilo que a pessoa nunca aceita, mesmo sofrendo muito — revela muito sobre sua ética e seu caráter. Até que ponto alguém resiste espiritualmente ao sofrimento? Esse limite mede, de certa forma, a grandeza moral da pessoa.

A vida não tem compromisso com nossos planos. Sem que mereçamos, ela pode nos lançar em situações absurdas e dolorosas. Eis alguns exemplos reais:

Uma mãe vai ao parque com os dois filhos. Enquanto brincam, uma corda enrosca no pescoço de uma criança e a asfixia. O médico não consegue salvá-la. A mãe e o irmão ficam em choque.

Em uma associação profissional, surge um mal-entendido: alguém é acusado de ter desviado dinheiro. Mesmo tendo explicado as contas, a suspeita persiste.

Um homem vive anos sem satisfação sexual no casamento; casa-se de novo e, pela primeira vez na vida, sente atração pela enteada. O desejo aumenta dia a dia.

Um filho único cuida dos pais doentes desde jovem. Já adulto, dedica tempo e carinho a eles. De repente, os pais o deserdam porque não aprovam sua namorada.

Uma mulher estrangeira vive em situação muito precária. Depende do empregador, que já a ameaçou diversas vezes. Um concorrente oferece muito dinheiro se ela copiar documentos da firma.

Nesses casos, as pessoas passam por forte pressão: tristeza, horror, raiva, medo, tentação. É natural que, sob pressão, as escolhas sejam mais difíceis. O “verniz” some e os verdadeiros rostos aparecem.

Para cada exemplo há reações que compreendemos: a mãe pode ficar paralisada pelo luto; o acusado pode querer se vingar; o homem pode ceder à tentação; o filho pode romper laços; a mulher pode aceitar a oferta desonesta. Tudo isso é psicologicamente entendível.

Mas também há pessoas que, sob a mesma pressão, agem de forma diferente — e nesses casos falamos de quem “supera a prova”. A mãe que decide viver por seu filho vivo; o membro da associação que recusa a vingança; o homem que domina o impulso por respeito à consciência; o filho que continua a cuidar dos pais apesar da ingratidão; a mulher que prefere perder tudo antes de trair sua honra. Essas pessoas mostram uma força moral que se destaca.

Existe um superteste que a própria vida aplica quando enfrentamos grandes tensões. É muito humano fraquejar; muitos precisam de ajuda quando isso acontece. Quem não fraqueja, no entanto, costuma receber da vida a avaliação mais alta.

Não quero que isso vire mais um rótulo: quem “frustra” no teste precisa de apoio — terapia, cuidado humano e espiritual. E essa ajuda existe. Às vezes chega por meios simples e inesperados, como diz o poema de Rudolf Otto Wiemer:

Não precisam ser homens com asas,

Os anjos.

Andam silenciosamente, não precisam gritar,

Muitas vezes são velhos e feios e pequenos,

Os anjos

Não têm espada nem túnica branca,

Os anjos.

Talvez seja alguém que te dá a mão

Ou mora ao teu lado, parede-meia,

O anjo.

Ao faminto trouxe o pão,

O anjo.

Para o doente fez a cama,

Ele escuta quando o chamas durante a noite,

O anjo.

Ele está de pé no caminho e diz: Não,

O anjo.

Alto como um poste e duro como uma pedra,

Não precisam ser homens com asas,

Os anjos.

“Ele está de pé no caminho e diz: Não, o anjo”. Não, apesar da extrema tensão emocional. Diz não à amargura, à vingança, à entrega aos instintos, ao ódio, ao ato criminoso. É “alto como um poste e duro como uma pedra” , o anjo. Ele nos ajuda na provação. Basta prestar-lhe atenção…

E se não houver alguém ao nosso lado na hora mais difícil — um terapeuta, um amigo, uma pessoa de fé — onde buscar força? A fonte que nos sustenta é também a oração, a conexão com algo maior. A história daquela senhora de 91 anos que, após perder as duas pernas num acidente, repetia “Que bom que ainda estou viva!” e, aos poucos, agradecia por cada ajuda recebida, ilustra como sofrimento e gratidão podem transformar a dor em sabedoria. Ela mesma disse seu segredo: “Rezo todos os dias.”

Citação de Peter Wust, ex-professor de Filosofia da Universidade de Munster:

Se me perguntassem, antes de eu partir, e partir definitivamente, se conheço uma chave mágica que nos abre a última porta para a sabedoria da vida, eu lhes responderia: “Sim”. Esta chave mágica não é a reflexão, como talvez se esperasse de um filósofo, mas a oração. A oração, entendida como entrega suprema, nos dá a paz, nos faz crianças, nos torna objetivos. Para mim uma pessoa cresce em humanidade — não em humanismo — na medida em que for capaz de rezar. Refiro-me à verdadeira oração. A oração caracteriza a máxima “ humilitas ” do espírito. As grandes coisas da existência só são dadas aos espíritos orantes. E coisas da existência só são dadas aos espíritos orantes. E a melhor maneira de aprender a rezar é no sofrimento…

Abraço, Julio Furlaneto

Como a terapia online pode ajudar

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