Psicoterapia: Compreensão e Transformação
O poder de enxergar o ser humano além dos sintomas
O poder de enxergar o ser humano além dos sintomas
Ela também é uma rica fonte de conhecimento sobre os desafios humanos — e sobre as formas mais eficazes de enfrentá‑los.
Macbeth: “Não podeis medicar uma mente adoentada. Arrancar da memória uma tristeza enraizada, Apagar do cérebro os problemas gravados, E com algum doce antídoto esquecido Tirar do peito apertado essa coisa perigosa Que pesa no coração?”
Doutor: “Nisto é o paciente quem deve medicar‑se…” (William Shakespeare, Macbeth)
Um homem chamado Edmund Husserl , que dedicou a vida ao método fenomenológico, nos ajudou a entender melhor a situação da pessoa humana em psicoterapia. Ele mostrou que temos a tendência de explicar tudo apenas pelas causas, esquecendo de ver a experiência como um todo — isto é, considerando sua maneira de se manifestar e de influenciar a vida da pessoa.
Um exemplo simples: imagine um professor dando aula a uma turma de psicologia ou psiquiatria. Durante a aula, ele cita algumas condições que, quando exageradas, atrapalham a vida dos pacientes.
Ele pergunta: “O que é vergonha?”
Nove em cada dez respostas falam de como a vergonha se desenvolve — suas causas — e quase nunca explicam o que a vergonha significa em si. Tendemos a acreditar que, se temos uma explicação causal ou entendemos como algo se desenvolve, então já conhecemos a própria coisa. Isso é um erro. É preciso ir além, compreendendo como a experiência nos é dada, em sua própria condição.
Se, em vez de perguntar “o que é vergonha?”, fizermos ao paciente a questão “o que você está expressando com o rubor no rosto?”, poderemos descobrir algo sobre a verdadeira natureza da vergonha. Assim, focamos em identificar os sentidos mais profundos da experiência que criam aquele cenário.
Esse olhar atento torna acessíveis padrões de comportamento que, antes, eram uma linguagem estranha para quem os vivencia.
O que se estuda, de fato, para realizar uma psicoterapia?
É curioso pensar que alguém se senta em uma cadeira, num consultório, rodeado por quatro paredes, com a expectativa de ser ajudado.
Vemos o paciente como alguém com “fracasso no trabalho, no relacionamento ou na sociedade”? Essa é uma maneira antiga de defini-lo — e que rebaixa tanto o paciente quanto sua situação.
Hoje, muitas vezes classificamos em transtornos de ansiedade, depressão, bipolaridade, borderline e outros sintomas. Esse olhar também é parcial, pois reduz o paciente a uma etiqueta diagnóstica, sem considerar sua história, seus desejos e suas contradições.
Talvez devêssemos dizer: “Aqui está uma pessoa com um problema, que vem ao terapeuta porque quer ficar bem.” Isso se aproxima da realidade — mas, infelizmente, não podemos ter certeza de que essa pessoa realmente quer ficar bem. Na verdade, muitas vezes ela é ambivalente: necessita continuar doente até que outras áreas de sua vida mudem. Chega em conflito e seus motivos são, certamente, muito confusos.
O homem é a criatura na natureza cujo ser depende de sua coragem; se não é capaz, devido a distúrbios mentais ou circunstâncias externas adversas, de se autoafirmar, ele se perde gradualmente.
O que podemos afirmar sobre quem veio ao meu consultório é que, desde o primeiro momento, já existe um relacionamento. Mesmo antes do encontro, quando eu e o paciente pensamos na consulta, a relação já começa a se formar — antes que eu possa observar se ele olha para mim ou desvia o olhar, se escuta atentamente ou não.
A doença é, muitas vezes, o meio que a pessoa encontra para se preservar. Não podemos supor que o paciente ficará bem automaticamente. Devemos imaginar que ele não se permite melhorar enquanto outras condições em sua vida e em seu meio não forem modificadas.
O problema psicológico, por isso, contém as possibilidades que esperamos mobilizar na psicoterapia. A partir daí, pode-se trilhar caminhos construtivos para ajustar a vida e restaurar a saúde mental.
E assim, na suave trama que se tece entre terapeuta e paciente, descobrimos que cada sentimento, por mais obscuro ou sufocante que pareça, guarda em si uma possibilidade de despertar.
A psicoterapia nos convida a percorrer esse território desconhecido — ouvir o sussurro do corpo, reconhecer o peso das memórias, desvendar os nós da angústia — para, então, redescobrir a própria força de habitar a vida com mais leveza.
É nesse espaço de escuta profunda e acolhimento sincero que o mistério humano se revela em cores mais vivas, e onde a esperança floresce em cada gesto de coragem para seguir adiante. Porque curar não é apagar cicatrizes, mas aprender a transformá‑las em histórias de renascimento.
Abraço, Julio Furlaneto
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