Julio FurlanetoJulio Furlaneto

Saúde mental · 4 min

Não espere perder para aprender

Pequenos gestos e presença que mantêm o afeto vivo

Julio Jansen Iglesias FurlanetoJulio Jansen Iglesias FurlanetoPsicólogo Clínico · CRP 05550-0
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Pequenos gestos e presença que mantêm o afeto vivo

“Um homem tinha passado a maior parte da sua vida numa ilha que era considerada uma das mais belas do mundo. Agora voltara para, após a sua aposentadoria, viver numa grande cidade. Alguém lhe disse: "Deve ter sido maravilhoso viver tantos anos numa ilha que está entre as maravilhas do mundo". O velho refletiu por alguns momentos e respondeu: "Para ser honesto se eu soubesse que ela é tão famosa eu teria observado melhor".

O ensinamento da história é evidente: não perca as maravilhas do mundo. Aprecie-as no seu devido tempo, não ande de olhos fechados, viva a vida. Seja agradecido pela bela ilha na qual você encontrou alguma felicidade em meio ao mar bravo. Se você notar a sua beleza apenas após a sua partida, será tarde demais.

A história de Anthony de Mello , do homem que só percebeu a beleza da ilha depois de tê-la deixado, mostra algo que acontece com muita gente: estar dentro da própria vida e, mesmo assim, não perceber o que importa.

Quando deixamos o presente escapar, não é apenas que perdemos momentos bonitos; perdemos a responsabilidade de responder à vida, e isso gera arrependimento e vazios que só aparecem depois que a oportunidade se foi.

No cotidiano isso se manifesta de maneiras simples e dolorosas. Em relacionamentos , por exemplo, você pode deixar de valorizar gestos pequenos, como um abraço inesperado ou um cuidado doméstico, porque está ocupado pensando em problemas passados ou em planos futuros. Também é comum adiar conversas importantes com a desculpa de que haverá um momento mais tranquilo no futuro, e esse momento nunca chega da forma que imaginamos.

Outra dinâmica frequente é a comparação constante com um passado idealizado, aquele começo da relação que virou memória perfeita; ao fazer isso, você perde a chance de construir intimidade a partir do presente.

Quando a atenção está fora do momento, a conexão enfraquece. O afeto se constrói em detalhes cotidianos, em reconhecimento, em agradecimento. Se você só percebe o valor depois que a relação acabou, o que resta muitas vezes é um lamento que não transforma nada.

Encontrar sentido passa por assumir que cada escolha revela quem somos e o que damos prioridade. Assim, a presença não é um estado passivo, é um ato contínuo de responsabilidade afetiva.

É possível começar a mudar esse padrão com práticas simples que cabem no dia a dia. Pare alguns segundos e respire com atenção aos seus sentidos; observe o que você vê, ouve e sente no corpo. Se mora com alguém ou está em um relacionamento, torne esse exercício um momento compartilhado ao fim do dia: falem uma coisa que cada um notou no outro.

Em vez de adiar conversas importantes para um “quando der” , combine um pequeno compromisso de tempo agora, mesmo que sejam dez ou vinte minutos sem distrações. A linguagem faz muita diferença; dizer um obrigado específico por algo que a outra pessoa fez transforma o gesto em reconhecimento e fortalece a ligação.

Se você percebe que costuma minimizar o presente, experimente um hábito diário de escrita curta onde anota uma coisa que hoje foi valiosa no outro ou na relação. Guardar essas pequenas notas e revisitá-las semanalmente ajuda a treinar o olhar de apreciação.

Quando perceber que deixou passar algo, não espere a prova do arrependimento para falar: um pedido de desculpas breve e genuíno e um reconhecimento do que se perdeu já reparam parte do dano e mostram intenção de mudança.

Para quem quer um roteiro prático, experimente um ciclo de sete dias com pequenas ações que crie continuidade. No primeiro dia, façam juntos uma pausa consciente de alguns minutos; no segundo, diga em voz alta algo que o outro fez e que você agradeceu; no terceiro, compartilhem uma memória afetiva e por que ela importa para vocês; no quarto, reservem vinte minutos sem celulares para conversar; no quinto, façam um elogio específico que não seja genérico; no sexto, criem um ritual simples, como um café após o jantar; no sétimo, sentem-se por dez minutos para expressar três coisas que cada um notou na semana e reconhecer o que desejam fazer diferente.

Essas pequenas repetições criam espaço para que a atenção ao presente se torne um hábito.

Mudar a forma de pensar também ajuda. Em vez de esperar o momento perfeito, aceite que momentos perfeitos são construídos por ações pequenas e repetidas.

Em vez de acreditar que se você não sentiu algo imediatamente já era, aprenda que perceber é uma habilidade que pode ser treinada. Troque a ideia de que detalhes não importam pela compreensão de que são justamente os detalhes que formam a narrativa do relacionamento.

A parábola da ilha de Mello nos adverte sobre a cegueira de não ver, e a logoterapia nos lembra que ver é também escolher e responder. Nas relações, isso significa transformar a presença em ato, escolher reconhecer, agradecer e reparar enquanto ainda há tempo.

Abraço, Julio Furlaneto

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