Em Busca de Si Mesmo em Tempos de Mudança
O Desafio da Identidade na Transição Cultural
O Desafio da Identidade na Transição Cultural
O dilema básico da consciência humana, em épocas de mudança cultural radical — como nos costumes sexuais e nas crenças religiosas — e os dilemas particulares, que são expressões dessa situação, tornam‑se mais difíceis de tratar.
Não é um dos problemas centrais da condição humana a sensação de não ter um sentido para viver? Até onde podemos agir? Caso o façamos, nossa ação realmente faria alguma diferença?
Atualmente, pessoas de todo tipo, especialmente as mais jovens, diagnosticam seu problema, quando vão a um psicólogo ou psiquiatra, como uma “crise de identidade”. “Quem sou eu?”, “Aonde vou?”, “Qual é o sentido da vida? ” não recebem respostas definitivas.
“Porém, enquanto nossa expectativa de vida aumentou, nosso tempo de vida significativo diminuiu.”
É possível carecer de um sentido de identidade e, ainda assim, preservar a esperança de ter influência — “Posso não saber quem sou, mas, pelo menos, posso fazê‑los me notar”. No nosso tempo de perda de significado, a sensação parece ser: “Mesmo que eu soubesse quem sou, não poderia fazer absolutamente nenhuma diferença como pessoa.”
O que vem acontecendo já há algum tempo é o resultado inevitável do coletivismo, da educação em massa, da comunicação de massa, da tecnologia de massa e de outros processos “de massa” que moldam as mentes e as emoções, ameaçando devorar o que há de mais precioso em cada um de nós: a imaginação e a consciência.
Ironicamente, fomos criados, desde o tempo dos pioneiros, a acreditar que o indivíduo é o que conta, que seu poder é decisivo a longo prazo e que, numa democracia, a palavra de cada pessoa determina a política.
“Apanhado num caos de padrões conflitantes — nenhum deles totalmente rejeitado, nenhum totalmente claro —, o indivíduo enfrenta exigências culturais sem meios imediatos de satisfazê‑las.”
A verdade é que a experiência da ausência de quaisquer papéis viáveis está acontecendo em nosso mundo atual, noventa anos depois. A impotência leva à confusão, à apatia e a uma convicção dilacerante, não importa o quanto a busca frenética por prazeres e companhia a encubra: “Eu não me importo.”
Quando as pessoas se sentem insignificantes como indivíduos, sofrem também um abalo em seu senso de responsabilidade humana. Por que assumir compromissos, se o que fazemos não tem importância?
A impotência transforma‑se em ansiedade; a ansiedade, em regressão e apatia; estas, por sua vez, em hostilidade; e a hostilidade, numa alienação entre as pessoas — um isolamento que reforça ainda mais a sensação de impotência. Esse é o círculo vicioso que surge quando o sentido da vida se esvai.
É fundamental usar a sabedoria do passado para iluminar o presente e o mundo ao redor. Isso requer autoconhecimento — a capacidade de afirmar‑se e declarar‑se — e, por sua vez, a crença no próprio valor. Nesse contexto, importa agir, acreditando que nossas ações podem exercer alguma influência.
A tecnologia, por sua facilidade e alcance, muitas vezes serve de fuga para nossa ansiedade, alienação e solidão. Podemos recorrer a um psicólogo, aprender uma nova técnica comportamental ou tomar um medicamento, de modo que, tempo depois, nos tornemos a pessoa que idealizamos. Mas usar a tecnologia como forma de escapar da ansiedade torna‑nos ainda mais ansiosos, isolados e alienados a longo prazo, pois ela nos rouba progressivamente a consciência e a experiência de sermos pessoas centradas e significativas.
O uso autodestrutivo da tecnologia consiste em empregá‑la para preencher o vazio de uma consciência enfraquecida. O desafio atual é perceber se hoje podemos ampliar e aprofundar nossa consciência para ocupar o espaço deixado pelo extraordinário aumento do poder tecnológico.
Em última análise, reencontrar o sentido de nossa própria existência é um ato de coragem e responsabilidade: coragem para enfrentar dúvidas e brechas na nossa identidade; responsabilidade para escolher ações que tragam significado, mesmo em meio às forças coletivas que nos empurram para a apatia.
Só ao reafirmarmos nosso valor individual e cultivarmos a consciência clara do nosso papel no mundo poderemos transformar ansiedade em propósito e isolamento em conexão verdadeira.
Abraço, Julio Furlaneto
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