Além do Rancor: Perdoar os Pais
O perdão consciente abre espaço para crescimento e liberdade.
O perdão consciente abre espaço para crescimento e liberdade.
Essas feridas não ficam apenas no passado: afetam o presente, prendem comportamentos, energias e possibilidades de mudança. O texto que segue explora por que o apego ao rancor enraíza problemas psicológicos e mostra como o perdão — ainda que difícil — é um caminho prático e libertador.
A ideia não é minimizar dores reais nem desculpar abusos, mas oferecer uma perspectiva sobre como viver com menos peso emocional e mais autonomia.
Perdoe a seus pais os erros que cometeram contra você.
As pessoas psicologicamente doentes passam pela vida com um grau espantosamente elevado de raiva, discórdia, crítica e acusação em relação a seus pais. Algumas externalizam (falam, expressam) diretamente esse conglomerado de caos; outras, mesmo sem exteriorizar, amarguram-se em pensamentos e sonhos.
Podemos deduzir que os pais de pessoas nessa situação cometeram tantos erros na educação dos filhos que acabaram provocando distúrbios mentais. Mas também é possível chegar a uma conclusão diferente: os desequilibrados emocionalmente, com muita frequência, são pessoas que rejeitam seus pais, não perdoam as faltas que estes (como, em maior ou menor grau, todos os pais) cometeram, e os culpam por seus próprios fracassos e perdas — não honram seus pais e, ao mesmo tempo, a vida não lhes corre bem.
Quem entra no presente voltado para o passado está inibido e enrijecido em sua energia mental e física , como a mulher de Ló.
A mulher de Ló é uma personagem bíblica mencionada em Gênesis 19; transformou-se numa estátua de sal por desobedecer à ordem divina de não olhar para trás enquanto fugia da destruição de Sodoma e Gomorra. A Bíblia não lhe dá um nome, mas seu ato de desobediência serve como alerta contra o apego ao passado. Isso nos mostra que a vida é um contínuo avançar, e as despedidas têm de ser contínuas, e não apenas no fim da vida.
O que não foi apaziguado não consegue descanso.
É arrastado através do presente como uma carga pesada e, além disso, envenena o futuro. Principalmente, hostilidades, conflitos e rixas familiares prendem, por assim dizer, suas pernas e impedem-no de avançar naquilo que é especificamente seu.
A questão não é encontrar culpados.
As raízes profundas do ódio estão muito ramificadas para poderem ser escavadas no solo da história. E, mesmo que fossem expostas à luz do dia através de complicadas análises, ainda assim continuariam existindo. Em princípio, o desamor não pode ser justificado pelos atos de desamor dos outros. Quem tenta isso só engana a si mesmo.
O que ajuda nesse cenário é muito mais simples e grandioso: o perdão. Nesse caso, “ simples ” não significa “ fácil ”, mas pode significar alívio repentino, pois quem perdoa de coração e sinceramente põe um ponto final e limpa uma parte importante de sua vida das ramificações danosas do ódio.
Finalmente, pode comemorar essa despedida e seguir seu próprio caminho livre de pesos. Os fardos que pesavam sobre as pernas tornam-se insignificantes, de onde um dia surgiram.
Surpreende saber que a maior parte das pessoas psicologicamente adoecidas que já atendi é formada por indivíduos inibidos, presos em comportamentos infantis, que não se libertaram da infância ou de fases anteriores da vida.
O problema deles não é terem muito a perdoar, e sim não estarem dispostos a perdoar ninguém (sobretudo, os próprios pais).
Toda decisão é decisão própria.
O que determina a identidade de uma pessoa não é o que os outros decidem sobre ela, mas o que ela mesma decide. Uma pessoa que é amada pode ser tudo o que quiser. Uma pessoa que ama é uma pessoa amorosa. Uma pessoa que é odiada também pode ser tudo o que quiser. Mas uma pessoa que odeia é, inevitavelmente, uma pessoa odiosa.
Pais briguentos vivem criticando, cobrando etc. Apesar disso, é a atitude dos filhos para com eles que determinará o bem-estar desses filhos. Se os filhos se omitirem, serão hipócritas; se aceitarem a tirania, favorecerão a tirania; e, se permanecerem interiormente firmes e exteriormente misericordiosos, serão pessoas estáveis e bondosas.
Claro, pode-se dizer que isso não é fácil. É verdade. Justamente por isso a doença psíquica constitui o ponto final de um caminho fácil, demasiadamente confortável, no qual se foge de qualquer desafio, obstáculo e responsabilidade.
O perdão é necessário para que se viva bem, para que se esteja protegido contra rancores e sofrimentos desnecessários e para que se esteja livre para enfrentar os problemas do futuro. Para os filhos, é preciso agradecer sinceramente aos pais pelo que receberam no processo de educação e, com a mesma sinceridade, perdoar o que não foi bom.
Rancor e acusações mantenham a pessoa presa ao passado e envenenam o presente e o futuro. Procurar culpados raramente resolve o problema; justificar o desamor pelos atos dos outros apenas prolonga o sofrimento.
O perdão aparece como uma atitude simples em sua essência — não necessariamente fácil — que pode dar um alívio profundo: quem perdoa limpa um pedaço importante de sua vida e ganha liberdade para seguir adiante.
Perdoar não significa esquecer ou concordar com o que aconteceu; significa escolher não carregar o ódio como proprietário da própria vida. Comece por pequenos passos: reconhecer a dor, agradecer o que foi possível aprender e, quando for possível, liberar o que impede seu crescimento.
Se a ferida for muito profunda, procure apoio profissional — o processo de perdoar pode ser fortalecido com orientação e suporte. O caminho da vida segue adiante; libertar-se do passado é permitir que novas possibilidades floresçam.
Abraço, Julio Furlaneto
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